Somos todos feitos de palavras.
As palavras preenchem abismos. São pontes de madeira e aço fino. Somos todos em forma de palavras. Palavras machucam, doem, cortam. Anunciam a paz para logo poderem declarar a guerra. As palavras são muito mais do que palavras. Há palavras sonoras e palavras murmúrios. Palavras meigas revoltam-se, subitamente bruscas. Raras são de confiar sem todos os cuidados, deslizando de sentido em sentido conforme o mundo por onde se movem. Há palavras que mostram o que outras escondem, palavras abertas e palavras fechadas. Íntimas e envergonhadas ou então sonoras numa insuportável gritaria. Há palavras que incendeiam almas, prisões, países. As mais verdadeiras e humildes andam sozinhas, têm raras amigas, são postas de lado. Por vezes meia palavra basta, por vezes palavra e meia não chega para nada. Uma mesma palavra para sempre repetida, todas as outras congeladas dentro de um frigorífico. Uma palavra insistente, duas palavras e é o fim do mundo. Sem palavras é o silêncio. O silêncio sem o qual não haveria palavras, que precisam constantemente de estacar para depois recomeçar. O silêncio de que são feitas as palavras.
por_Pedro Paixão.
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